Entrevista com Hilda Lopes Pontes - cineasta de Horror

Depois de algum tempo sem entrevistas no site, fomos agraciadas com uma entrevista maravilhosa com a cineasta brasileira Hilda Lopes Pontes. O cinema de Horror brasileiro cresceu (em qualidade e quantidade) nos últimos anos ganhando projeção internacional principalmente pelo trabalho de grandes diretoras como Anita Rocha da Silveira, Juliana Rojas e Gabriela Amaral Almeida. Pois bem, Hilda é uma dessas mulheres que tocam o terror e que conquista cada vez mais espaço no cenário do Horror brasileiro. Espero que curtam a entrevista e fiquem de olho no trabalho dessa cineasta!

Apresentação da cineasta:

Formada em Direção Teatral pela Universidade Federal da Bahia em 2013, mestre em Artes Cênicas na mesma faculdade onde realizou a graduação. Sócia da Olho de Vidro Produções, onde em 2014 fez seu primeiro curta-metragem, Caos, selecionado para a mostra competitiva do Festival de Curtas de Cabo Frio (RJ) e Festival Imagem em Movimento, no Amapá. Seu novo curta. Estela acabou de ser finalizado , em maio deste ano (2017). Em 2017, dirigiu o clipe da Banda Marana, Muitas Bahias. Foi, também, codiretora e montadora de diversos materiais promocionais, tanto de institucionais, quanto de peças teatrais como clipes e teasers, além do registro completo das obras como As Confrarias que venceu o Prêmio Braskem de 2015. Em 2016, dirigiu Inúteis, websérie inspirada em seu espetáculo de formatura na Escola de Teatro, colaborando também com os roteiros, montagem e a direção de produção dos episódios.

Pôster de "Onze minutos", o mais recente filme dirigido pela cineasta



MNH: Como e quando você decidiu entrar para o mundo do Cinema de Horror?


HILDA: Minha relação com o horror sempre foi muito particular. Tive na escola uma criação católica e em casa uma criação que unia catolicismo e espiritismo. Cresci acreditando em tudo o que via ou era me dito que existia e sou assim até hoje. Eu não acredito em bruxas, mas que elas existem, existem. Usei esse ditado para qualquer coisa que era me dito. Sempre ficava a dúvida. Então, quando assistia filmes de horror com temática mais para o lado espiritual, de possessões ou demônios, passava muito tempo com minha vida sendo afetada literalmente. Passei muitos anos tentando me livrar do medo da menina do Exorcista, mas ainda não aconteceu de perde-lo.

Mas também tinha um desejo que sempre me puxou ao horror. Mito influenciada por Edgar Allan Poe e Stephen King na adolescência, comecei a escrever contos e poemas de horror. As pessoas da minha família liam e ficavam com medo de verdade e fiquei um pouco viciada nesse sentimento de que as pessoas estavam se surpreendendo e sentindo, talvez, o mesmo medo que eu vivenciava com os filmes que tanto tinha pavor.

Então, passei um tempo sem pensar em explorar o gênero novamente. Mas, em 2015, assisti dois filmes num festival soteropolitano, o Panorama Coisa de Cinema e esses dois filmes me motivaram a pesquisar o que seria o horror atual brasileiro no cenário independente. E foi dessa pesquisa que tirei forças para ter novamente coragem de perder o medo de pensar e assistir coisas ligadas ao sobrenatural.

A minha imersão no âmbito do fazer horror tem sido aos poucos, aos poucos vou tendo coragem de falar e trazer o que me dá medo para os filmes. Porque penso que trazer para meus roteiros os meus próprios medos terminam deixando as obras mais potentes.


MNH: Sabemos que até hoje, as obras audiovisuais feitas por mulheres ainda são a minoria, sobretudo no cinema nacional. Sendo uma mulher, como foi todo esse processo de decidir quais histórias contar, de conseguir pôr a sua visão nos filmes?


HILDA: Eu realmente pensei em desistir do sonho que eu tinha desde os 15 anos, que era dirigir filmes, somente pelo fato de ter chegado a um ponto de pensar que não era o meu lugar. Talvez fosse importante demais, talvez não existisse mulheres fazendo, não o suficiente, pelo menos. Eu parava pra pensar e me via meio que presa num lugar de fazer produção, eu via outras mulheres sendo produtoras e sentia que talvez fosse o que eu soubesse fazer.

A produção é um campo muito difícil, mas muito gratificante também. Mas eu queria colocar em prática tudo o que pensava de histórias, queria mostrar meu olhar em relação ao mundo. Não sei se estou divagando muito, mas, eu passei um tempo desacreditada de que havia espaço para as mulheres terem destaque no cinema. Eu sempre entendi que poderíamos fazer, mas me desmotivava muito ver poucas mulheres ganhando prêmios, sendo contempladas em editais, enfim, sendo exemplo para outras mulheres.

Mas, percebi que eu precisava lutar pelo meu espaço, pelo nosso espaço. Que era necessário me unir com outras realizadoras, procurar outras críticas de cinema e começar a realizar projetos juntas. Unidas, teríamos mais força contra um sistema que dá de bandeja privilégios aos homens.

Percebi também que eu precisava contar nossas histórias, parar de deixar para homens o registro do nosso protagonismo na arte. Era necessário falar do que vivi na vida, dos meus medos e problemas passados por ser mulher. Você não precisa ser panfletário para falar dos nossos conflitos, abordando eles você já está fazendo um protesto, porque a realidade da mulher é tão conflituosa que um cotidiano comum na vida de uma de nós já dá uma história que elucida nosso pouco espaço social. Enfim, divaguei demais....


MNH: Nos fale um pouco sobre o curta ‘Onze Minutos’ que você está dirigindo no momento. Como foi a pré-produção e as gravações? Em que fase está o filme no momento?


HILDA: A pré-produção foi uma parte delicada. Para conseguir fazer um filme independente deslanchar é difícil. A gente não tinha nenhum dinheiro no orçamento para realizar o curta e precisávamos gravar quase toda a história dentro de um carro em movimento, coisa que nunca tínhamos feito e que precisava de investimento financeiro para ser realizado.

A gente conseguiu um quarto do necessário para fazer o filme, mas, mesmo assim, fiquei muito feliz em ver a quantidade de pessoas que apoiou o filme, pessoas que nem conheciam a equipe colaborando por conta da temática que estamos abordando.

Gravar nossos filmes sempre é a parte mais cansativa, mas também a mais divertida. É quando eu lembro porque decidi ser cineasta e quando me emociono vendo o que tanto idealizei se realizando na minha frente. Ainda mais quando contamos com uma equipe tão boa e dedicada como tivemos em Onze minutos e que trabalhou no filme somente por acreditar nele. O filme não era mais só meu, era de todos nós.


Making off de "Onze Minutos"


MNH: Tratar sobre violência contra a mulher no cinema – sob o olhar feminino- é de extrema importância, principalmente no contexto atual do Brasil e do mundo. Como foi o processo de pesquisa e escrita do roteiro de ‘Onze Minutos’? Quais cuidados você teve que tomar para falar deste assunto?


HILDA: Nossa, eu escrevi a primeira versão do roteiro em meia hora de uma noite. A primeira versão não foi difícil. Mas, as outras sete, sim. Porque eu queria muito falar sobre o assunto e, por isso, as palavras foram saindo da minha cabeça de maneira muito rápida. O que acontece é que quando você vai falar da opressão que sofremos como mulheres você precisa deixar delimitados muitos limites, deixar claro que a culpa não é da mulher, deixar o mais fácil possível o caminho para que a mensagem pudesse ser passada sem subestimar o espectador. Por isso, foram oito versões do roteiro, oito versões tentando dizer o que eu queria dizer, mas também protegendo nós enquanto mulheres, de um discurso que se voltasse contra nós mesmas.

Além disso, fiz uma consultoria de roteiro na Mostra Elas, com Francine Barbosa, que me deu um auxilia muito grande para a última versão do script. Ela me ajudou a refletir muito. Mesmo. Debater roteiros é sempre algo muito importante, não ficar satisfeito tão facilmente.


MNH: Poderia nos falar também sobre os outros filmes que você já escreveu/dirigiu?


HILDA: Onze minutos é o meu terceiro curta. Antes dele dirigi Caos, em 2014 e Estela, que foi finalizado em maio deste ano.

Caos foi uma peça que escrevi na graduação em teatro e que transformei em curta. Ele mostrava uma personagem perdida no limbo entre a vida e a morte. Era um curta de seis minutos que gravei todo num dia. Foi um processo de começar a produzir cinema não amador, mas que tinha ainda um caráter de reunir amigos para fazer um filme. Mas foi uma maneira incrível de começar.

Estela, que gravamos em 2016 e foi finalizado este ano, já foi um processo diferente. Eu tinha menos de um ano que havia tido minha filha e queria muito falar sobre a solidão na gravidez, sobre as obrigações femininas em relação aos filhos e como os homens podem e sentem-se no direito de serem muito mais livres em relação às mulheres. Foi uma hipérbole do que senti grávida e o reflexo de muitas mulheres grávidas que comecei a reparar. Elas achavam que estavam acompanhadas, mas, na verdade, os maridos e companheiros as deixavam sozinhas em processos como chá de bebê, escolher enxoval, maternidade, etc. E esse filme foi sobre isso, sobre essa solidão depressiva que podemos sentir nesse período.


Pôster de "Estela"

MNH: Para você, qual a importância de se ter filmes escritos/dirigidos por mulheres e com equipes majoritariamente femininas?


HILDA: A maior importância de todas está relacionada ao olhar. Eu acho que homens podem escrever sobre mulheres e mulheres sobre homens. Mas, socialmente, há muitos vícios sobre pensamentos do que é ser mulher e o que ela vive. O cinema corroborou para isso também, mostrando mulheres muito irreais, mulheres bidimensionais. Precisamos falar da gente, dos nossos problemas, dos nossos conflitos. Temos muito o que dizer, muito o que expurgar. Além disso, precisamos de espaço para trabalhar. Quando mulheres chamam outras para fazer parte de sua equipe elas estão garantindo que a presença feminina em set de filmagens cresça, fortalecendo o mercado para as mulheres e, por conseguinte, se fortalecendo. Acredito que esse é o caminho


MNH: Quais são as suas maiores influências e inspirações no Horror? (Diretoras(es), roteiristas, etc..)


HILDA: A minha principal influência no horror vem da literatura , vem de Edgar Allan Poe. Eu acredito que ele escreveu a maior quantidade de formas de horror e tinha um talento enorme para provocar o medo de maneira muito sutil. Mas também tenho minhas inspirações no cinema, principalmente, no cinema nacional. Os filmes de Marco Dultra, Juliana Rojas, Gabriela Amaral, Anita Rocha da Silveira. E, claro, uma paixão pelos filmes do Wes Craven, do Dario Argento, Brian de Palma, alguns filmes do Shyamalan.

De diretoras eu tenho duas principais inspirações. Uma delas é a Sofia Coppola, principalmente, Virgens Suicidas e O estranho que nós amamos. Ela mostra um universo feminino que trás muita memória da minha infância por eu ter vivido numa família repleta de mulheres. Todas nossas desavenças e opressões vividas são traduzidas de maneira quase mágica por Sophia. E também a KathrynBigelow. Foi com ela que percebi que as mulheres não estavam destinadas a só um gênero de filmes. Também curto muito o cinema da Muylaert.

A gente precisa procurar mais o cinema feminino. Se todo filme que a gente curtir a gente reparar em quem dirigiu e ver que foi uma mulher, pronto, ficamos conhecendo mais uma mulher cineasta. Foi assim que conheci a Jenifer Kent, de O Babadook. Me apaixonei pelo filme e procurei quem dirigiu. Ela conseguiu trazer um olhar para a maternidade que eu tenho certeza que só uma mulher conseguiria. Enfim, vamos conhecer mulheres cineastas, temos muitas geniais!


MNH: Quais os seus filmes de Horror preferidos que foram dirigidos por mulheres?


HILDA: Primeiro, o já citado O babadook, sou extremamente apaixonada por esse filme. Gosto muito também de Trabalhar Cansa, que é da Rojas com o Dutra. De Boa noite, mamãe , que é da Veronika Franz com o SeverinFiala e Mate-me por favor, da Anita Rocha da Silveira. Eu sempre cito o Mate-me porque ele, além de ser um longa de horror bem realizado, traz um cotidiano de meninas adolescentes, mostrando um lado muito menos dócil do universo feminino, quebrando essa noção de que somos todas bonitinhas e meigas.


MNH: Por fim, quais são seus planos para o futuro? Já está pensando no seu próximo filme?


HILDA: Eu estou escrevendo o argumento de dois dos meu próximos curtas. Estou num processo de idealização também de duas séries infanto-juvenis e continuo pesquisando o horror nacional independente, procurando traçar um post-horror no campo do cinema nacional


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