Garota sombria caminha pela noite (2014)

No nosso post inaugural, resolvi falar sobre o filme "Garota sombria caminha pela noite" (A girl walks home alone at night), que inclusive há uma foto da personagem protagonista logo ao lado do nome do site. O filme é do gênero de Horror, e foi feito em 2014, lançado em dezembro de 2015 no Brasil, e é dirigido por Ana Lily Amirpour, sendo o longa metragem de estréia da diretora. A diretora que nasceu na Inglaterra, mas possui origem Iraniana, trás algo totalmente diferente dos padrões hollywoodianos, tanto no recurso narrativo quanto estético. O filme foi gravado em apenas 24 horas e surgiu a partir de um curta metragem de 2011 da mesma diretora, o longa conquistou os prêmios de Revelação em Deauville, Gotham e Havai. Também foi indicado ao Independent Spirit Award de Diretor Revelação, Fotografia e Filme de Estreante, e no Festival Fantástico de Sitges Espanha, por Diretora Revelação e Filme Jovem.

Logo que busca-se o nome do filme no Google, recebe-se a seguinte sinopse: “Uma vampira skatista ataca homens que desrespeitam mulheres em uma cidade iraniana”. E este certamente pode ser considerado o tema principal do filme, mas não é somente isso. O filme é ambientado em uma cidade fictícia iraniana chamada “Bad City” (Cidade do Mal, em tradução livre), embora tenha sido filmado na cidade de Taft, Califórnia. Neste espaço urbano, a indústria, a prostituição e as drogas são facilmente destacadas e mostram a degradação humana em seu exponencial máximo. Percebe-se isso logo no início quando o personagem Arash (Arash Marandi), passa por uma ponte que, ao contrário do comum, não tem um rio ou represa, e sim uma vala com corpos humanos jogados, esperando sua decomposição, assim como aparentam esperar os moradores desta cidade quase que fantasmagórica.

Dentre os personagens que habitam esta cidade fantasma, somos apresentados a um traficante impiedoso, uma prostituta expressiva, um garoto que vive nas ruas, um viúvo viciado em drogas e seu filho, e finalmente “a Garota” (Sheila Vand) cujo nome e origem são desconhecidos. Solitária e silenciosa, ela espreita os moradores da cidade e é impiedosa com homens que maltratam as mulheres, sem poupar crianças nem idosos. A Garota é uma vampira que escolhe suas vítimas a partir de seu próprio critério, ao contrário do que é visto comumente nos filmes de horror. Em vez do vampiro que sequestra a moça, aqui temos uma vampira violenta que ataca homens desprezíveis que tratam mulheres como lixo – por isso, de certa forma ela é considerada uma justiceira, e por isso também há tanta potência na imagem da vampira neste longa.

Em um dos momentos marcantes do filme, inclusive, a Garota encontra um menino de rua e o assusta, dizendo que irá observá-lo pela vida toda para ter certeza de que ele será um bom garoto, pois a vampira não deixa machistas e misóginos impunes. Além disso, neste momento, a Garota rouba o skate do menino, e na cena seguinte anda de skate pelas ruas com sua burca e sua blusa listrada. Qualquer estereótipo é quebrado em “Garota Sombria”. O filme trás uma forte mensagem de empoderamento feminino, e esse recado não é mera coincidência: histórias de abuso são comuns no cinema mundial e principalmente no cinema iraniano, gestado numa sociedade patriarcal e opressora, onde a liberdade das mulheres ainda é muito limitada e controlada.

A Garota, tanto inserida no âmbito do filme quanto para a história do cinema e seus espectadores, é necessária e importante para desconstruir padrões e arquétipos de gênero e dos filmes de horror. A vampira não é apenas uma justiceira, como falado anteriormente, como também uma heroína sem escrúpulos que ouve Lionel Richie e rock, dança e se maquia sozinha e gosta de skateboarding. Além disso, na maioria das vezes no gênero de terror, os predadores e monstros são homens e suas vítimas na grande maioria são mulheres. Normalmente a figura de mulher como predadora é pouco utilizada nas narrativas, e vêm acompanhada sempre de um certo “incompreendimento” ou é vista como uma alma atormentada e assombrada.

O roteiro do filme deixa qualquer dinamismo de lado, e pode até ser considerado um tanto chato e cansativo, pois se prende muitas vezes à momentos de pura contemplação, para além da função necessária narrativa. A trilha sonora usa desde rock iraniano, até hits dos anos 80, e músicas típicas de filmes de faroeste, e é usada também como elemento de narração, fazendo com que o espectador fique atento e tenso também em alguns pontos. Para além disso, a música não cumpre o papel de mostrar em que época se passa o filme, e é fácil sentir-se deslocado quanto ao tempo assistindo “Garota Sombria”, pois este apresenta-se ora lento e vagaroso, ora as coisas acontecem rapidamente. Assim como a Garota espreita os moradores de Bad City, quem assiste ao filme também se sente vigiado e desprotegido, como se algo de ruim fosse acontecer a qualquer instante.

A fotografia em preto em branco explora muitos tons de cinza por vezes, e outras vezes aposta no forte contraste superexposto entre o branco e o preto, sem uma grande gradação. A estética trabalha muito a favor do filme, que possui um enredo relativamente simples. Além disso, o filme gera um debate indispensável e crucial, trazendo uma reflexão pouco feita pela maioria das obras cinematográficas e que com certeza ecoa, deixando uma marca e uma mudança em quem o assiste. “Garota sombria caminha pela noite” afirma em forma de desafio o poder feminino e dá um toque moderno aos gritos de batalha contra o patriarcado opressivamente disfuncional. É, portanto, uma obra necessária e pertinente.

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