As Mulheres que moldaram o Gênero do Terror (Parte 1)

Esse texto é uma tradução livre do texto: The Women Who Shaped the Horror Genre, que faz parte de uma série de quatro textos escritos por Sady Doyle ( @sadydoyle ) para o The Fearsome is Female postado no dia 17 de maio de 2017.

Todo sábado um texto da série será postado aqui no Mulheres no Horror. Fiquem ligados!

Vivemos em um mundo cheio de terror não reconhecido.

É um dos paradoxos centrais da sociedade americana: somos, por quase todos os padrões razoáveis, pessoas inusitadamente violentas. Basta olhar para as estatísticas: uma média de uma aula de tiro por semana desde 2013, 136 tiroteios em massa em 2016, uma taxa de homicídio relacionada a armas que é 25 vezes maior do que a de outros países desenvolvidos. Em suma, os americanos são sete vezes mais propensos a morrer de violência do que as pessoas em outras nações de alta renda.


No entanto, também somos, invulgarmente, uma nação que considera que ver ou falar sobre violência é algo de mau gosto. Os políticos nos alertam, na cara dura, para não politizar nenhum massacre. Adolescentes, que atualmente estão preocupados com a sua própria mortalidade, são aconselhados a não ficarem mórbidos. Alguma dose de otimismo, não-opcional, insiste que continuemos acreditando que tudo dará certo, mesmo quando tudo, com toda a certeza, não vai dar.


Isto é particularmente uma verdade para as mulheres, cujos corpos e vidas são almejadas por essa violência, que elas não deveriam ter conhecimento. Mais uma vez, uma rápida passada pelas estatísticas nos conta a história: uma em cada três mulheres será abusada fisicamente por seu parceiro durante a sua vida, uma média de vinte mulheres por minuto e dez milhões de mulheres por ano. Uma em cada seis mulheres sobreviveu a um estupro ou a uma tentativa de abuso sexual. Mais de um terço de todas as vítimas de homicídios são mortas por seus parceiros do sexo masculino. Quanto a toda essa violência armada americana, bem, as balas estão atingindo alvos femininos. A maioria dos assassinatos em massa são apenas incidentes de violência doméstica com uma contagem corporal maior: em 57 por cento dos tiroteios em massa entre 2009 e 2014, as vítimas incluíam o parceiro do assassino e / ou um membro da família (e essas vítimas eram mulheres ou crianças 81% do tempo). Um histórico de violência doméstica é uma das melhores previsões de uma futura matança.


Esses são os dados dos EUA, mas o Brasil não fica atrás, sendo o quinto país com mais taxas de feminicídio do mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o número de assassinatos chega a 4,8 para cada 100 mil mulheres. O Mapa da Violência de 2015 aponta que, entre 1980 e 2013, 106.093 pessoas morreram por sua condição de ser mulher. As mulheres negras são ainda mais violentadas. Apenas entre 2003 e 2013, houve aumento de 54% no registro de mortes, passando de 1.864 para 2.875 nesse período. Muitas vezes, são os próprios familiares (50,3%) ou parceiros/ex-parceiros (33,2%) os que cometem os assassinatos.


Segundo dados do Ligue 180, da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, houve um crescimento de 133% no volume de relatos de violência doméstica e familiar em 2016. Entre as denúncias, a central de atendimento identificou aumento de 123% no número de relatos de violências sexuais em relação ao primeiro semestre de 2015. Esse tipo de violência foi puxado principalmente pelos relatos de estupros, que cresceram 147%, chegando a 2.457 casos, com média de 13 registros por dia.


Para saber mais cliquem: “O feminicídio é hoje o maior problema de enfrentamento à violência contra a mulher no Brasil”, “11 anos da Lei Maria da Penha. 11 dados recentes da violência contra a mulher no Brasil.” e "Denúncias de violência contra a mulher chegam a 73 mil, em 2018"


Estas são apenas as grandes e óbvias formas de violência; aquela com contagens de corpos e evidências (*paper trails no original), aquela com nomes. As mulheres podem morrer por negligência institucional ou pelo auto ódio que é culturalmente instilado com a mesma facilidade que são mortas por armas. No entanto, já que o terror feminino geralmente acontece nos lugares que designamos “doméstico” e “privado” — em relacionamentos amorosos, na família, em casa — muitas vezes é indiscutível. Nós chamamos isso de assunto privado, um desentendimento familiar, um crime passional, uma transa ruim, um encontro ruim, um casamento ruim, parentes ruins; chamamos de tudo menos do que é, que é violência. E, quando as mulheres que sobrevivem falam sobre isso, são mais propensas a serem taxadas como instáveis ​​e vingativas do que realmente conseguirem justiça. O que acontece em casa fica em casa, e Deus ajude a mulher que trazer isso à tona.


O otimismo obrigatório vem com um custo alto — ou seja, o custo do silêncio, que como tudo e qualquer um que não se encaixa na narrativa perfeita é sistematicamente silenciado e ignorado. No entanto, nenhuma verdade urgente pode ficar em silêncio para sempre. Em face de toda essa repressão, nós inventamos uma literatura do indizível — uma forma de arte que confronta ritualmente, não apenas a violência, mas todas as outras horríveis verdades concretas que não devemos falar na mesa de jantar. Temos o terror: um gênero que é praticamente, inteiramente dedicado ao nascimento, copulação e à morte.


Esses são todos os fatos quando você vai ao que interessa (* do original: That’s all the facts when you come to brass tacks), T.S. Eliot nos diria. São também, distintamente, fatos femininos: parir e foder, pois ambos pertencem a essa esfera doméstica, feminina, indescritível. A morte é um pouco mais neutra em termos de gênero (“a morte é uma mulher”, insistiu Simone de Beauvoir, embora, talvez, apenas pela simetria), mas apenas um pouco. A morte pertence ao corpo, que sempre foi algo da mulher, corruptível, um território feminino; os homens, afinal de contas, reivindicaram a mente para si mesmos, com os seus movimentos de objetividade e genialidade, deixando o resto de nós brincando na lama com os restos que eles deixaram.


O terror toca na lama. É exuberantemente físico, tão interessado em fazer você vomitar ou pular ou gritar como em fazer você pensar. O terror é luxuriantemente amador; suas metáforas são tão insípidas que crianças do primário podem analisá-las. O seu enredo e diálogo são frequentemente bobos ao extremo, é melodramático e estridente e todas as outras coisas que as mulheres são acusadas de serem sempre que levantam a voz. O terror é tudo isso e ainda assim funciona; como uma mensagem codificada, um grito que brota de um sorriso, um ritual de confronto da sociedade violenta com sua própria violência, o terror pode violar as regras do bom gosto em todos os níveis imagináveis ​​e ainda assim manter um poder tremendo.


Então, o terror, você vai pensar, é o paraíso natural para artistas femininas. É um gênero sobre trauma, centrado nos espaços domésticos e privados, onde o trauma da mulher frequentemente se desenrola: a família, a casa, o relacionamento amoroso, o corpo; lugares seguros que podem ser irrevogavelmente violados ou se tornarem ameaçadores em um instante. No entanto, até recentemente, os críticos viram o terror como um fenômeno, em grande parte, masculino. Ele é visto como o bagaço descartável para meninos adolescentes, viciados em Mountain Dew à procura de algo ilícito. Mesmo os críticos que consideram o terror mais seriamente, e escreveram artigos mais empáticos e pensativos sobre ele — o Men, Women and Chainsaws da Carol Clover me vem à mente — tendem a assumir que as mulheres na tela são apenas ficções convenientes, e por isso os espectadores de qualquer filme de terror (para não mencionar as pessoas que realmente os fazem) são do sexo masculino.



Não tão rápido. As mulheres sempre fizeram terror; as mulheres, indiscutivelmente, moldaram o terror para a sua forma atual. As mulheres também foram, em vários momentos ao longo da história, as principais consumidoras e fãs de terror; as pessoas que liam todos aqueles lúgubres romances góticos não eram jovens homens impressionáveis. Isso não deveria ser surpreendente. A ficção de terror pode fornecer um caminho para que as mulheres explorem suas próprias vulnerabilidades no patriarcado e seus próprios medos especificamente femininos, sem serem condenadas e envergonhadas por isso; as mais importantes e mais dramáticas, metáforas e a natureza excessivamente excessiva do gênero, podem dar cobertura às mulheres para as mais importantes e mais dramaticamente excessivas verdades.


Esta é uma série de textos dedicados ao relacionamento das mulheres com o terror — e o relacionamento das mulheres com o medo. Cada capítulo abordará uma criadora diferente e como ela usou o gênero para dar voz às verdades indescritíveis sobre a vida das mulheres: os natimortos de Mary Shelley, a sufocante vida doméstica de Shirley Jackson ou a atual renascença de diretoras do terror artístico e o seu fascínio pela fome das mulheres. Ao analisarmos o seu trabalho — e o trabalho que elas influenciaram — podemos entender algo novo sobre todo o terror não reconhecido que envolve a vida das mulheres. Podemos confrontar o rosto indizível de nossa própria opressão e vivermos para contar a história. Podemos usar essas histórias obscuras para explorar as escondidas faces das mulheres no mundo.




Postado originalmente no Medium.

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Resenhas críticas, artigos e dicas de filmes de Horror: tudo isso sob a perspectiva feminista, com o objetivo de debater a importância das mulheres no gênero, tanto atrás quanto em frente às câmeras, exaltando personagens femininas fortes e mulheres realizadoras de Horror no audiovisual.

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