Os 40 anos de Suspiria: todas as cores de um clássico surpreendemente feminista

Há quarenta anos, Dario Argento já tinha uma carreira consolidada no cinema italiano como diretor e roteirista. Como um dos grandes expoentes do Movimento Giallo, o horror não era um gênero estranho para o cineasta quando, em 1977, introduziu ao mundo o filme mais significante de sua carreira: Suspiria.


[Spoiler alert]


Suspiria é uma história ambientada na Alemanha e começa com a chegada de Suzy, uma estudante de balé dos Estados Unidos, que foi aceita numa conceituada escola de dança. Logo em seu primeiro contato com a sua nova morada, Suzy se depara com uma aparente aluna da escola em uma fuga desesperada do lugar, enquanto repete palavras delirantes e sem sentido.


Com o passar dos dias, Suzy testemunha diversas situações surrealmente estranhas, em especial os misteriosos desaparecimentos e mortes de vários personagens ao longo da história. Cada vez mais, a bailarina se encontra mais encarcerada e sufocada pelos sinistros professores e funcionários do instituto. Inicialmente, Suzy é apenas mais uma vítima da escola, que a faz ficar propositalmente doente para que seja obrigada a se mudar para um dos dormitórios internos e controla seus questionamentos e livre-arbítrio com drogas.


Durante esse período em que Suzy está tão dopada que mal consegue se manter acordada, sua amiga Sara tenta ajudá-la e investiga os mistérios da escola, motivada pelo fato de que a garota que fugiu e foi assassinada na noite da chegada de Suzy era sua amiga. Um dos sinais estranhados por Sara é o estranho “suspiro” ouvido pelas estudantes. Quando questionada, a professora Madame Blanc disse se tratar do ressonar da diretora da escola, que nunca é vista por ninguém. Além disso, embora os internos acreditassem que os professores não passavam a noite na escola, os passos ouvidos por Sara andavam em direção ao interior da escola ao invés de para fora.


Após o desaparecimento de Sara, Suzy precisa se livrar das substâncias a que era submetida e continuar as investigações sozinha. Com o andar da história, ela descobre que a escola foi fundada por uma bruxa grega chamada Helena Markos e decide seguir os passos contados por Sara para descobrir para onde vão os professores todas as noites e quais outros segredos aquele lugar esconde. No clímax do filme, é revelado que Markos ainda está na escola e, apesar de ser um cadáver, ainda é responsável por tudo o que acontece por lá, pois ela é a Mãe dos Suspiros.


Argento e o Movimento Giallo


Como Argento é sinônimo de Giallo, não se pode falar de Suspiria sem falar sobre o movimento. O gênero também literário surgiu no cinema com o diretor italiano Mario Brava, e seu nome significa simplesmente "amarelo", pois era a cor das capas dos livretos policiais que eram populares na Itália pós-fascismo. São thrillers de horror e suspense que geralmente envolvem uma jovem vítima, um detetive e um misterioso serial killer de mulheres, cuja revelação da identidade geralmente é o clímax da trama.


Embora essas características não sejam limitadas aos thrillers italianos, os filmes Giallo tem como temas comuns a sexualidade, o delírio e a paranoia, elementos que, quando combinados, formam um prato cheio de surrealismo. O que torna o Giallo distinto de outros filmes de gêneros semelhantes são as cenas brutais e explícitas envolvendo sexo e violência. Tudo é muito sensualizado em nível voyeur, a começar pelo símbolo mais reconhecido nos filmes do movimento: uma luva negra.


Logicamente, o gênero é bastante acusado (e com razão) de misoginia, uma vez que são sempre mulheres as vítimas que servem para motivar o detetive a encontrar o assassino, no perfeito estilo Women in Refrigerators. O próprio Dario Argento, constantemente criticado por quase sempre utilizar mulheres como vítimas em seus filmes, já proclamou a infeliz declaração que dizia "prefiro assistir elas [mulheres bonitas] sendo assassinadas do que uma mulher feia ou um homem feio". Pois é.


"Feminista" por acaso


Sem defender o indefensável, voltemos ao Suspiria. Ele não é um filme Giallo (amém) e, considerando o histórico e as declarações do diretor, possui alguns gracejos surpreendentemente feministas. Um sopro de ar puro na filmografia de Dario Argento e, por que não dizer também no gênero de horror como um todo.

Para começo de conversa, é válido ressaltar que Suspiria é uma obra que passa nas três regras do Teste de Bechdel: deve haver pelo menos duas personagens do sexo feminino, elas devem possuir falas e nomes e elas devem conversar entre si sobre assuntos que não sejam homens. Mesmo com o florescer da popularização do feminismo, ainda hoje muitos filmes de diretores menos reconhecidamente machistas não passam no teste. Só para dar um exemplo da gravidade disso, dos nove filmes que concorreram ao Oscar desse ano na categoria de Melhor Filme, somente um passa nas três regras do teste (caso esteja se perguntando, sim, é o Estrelas Além do Tempo).


Em Suspiria, apesar de o cenário se tratar de uma escola mista, a maioria dos personagens do filme que possui relevância e falas é mulher. E são todas mulheres extraordinárias, diga-se de passagem. Desde as heroínas (Suzy e Sara) até as vilãs (as professoras Madame Blanc e Senhorita Tanner, além, é claro, da própria Helena Markos, a Mãe dos Suspiros) são figuras femininas fortes e corajosas, cada uma a sua maneira e em vista de seus objetivos distintos. Mesmo as personagens mais coadjuvantes, como Olga, a primeira colega de quarto de Suzy, mostram em seu limitado tempo de tela personalidades interessantes que auxiliam a moldar o horror claustrofóbico que se adensa com o andar da trama.

O espiral de um pesadelo


Muito antes de maquiagem, efeitos visuais, tramas recheadas de reviravoltas, monstros clássicos ou modernos, os sobrevalorizados jump scares e vários litros de sangue falso, o elemento mais básico para a construção de um bom filme de horror é a ambientação. A construção da tensão da narrativa, seja ela precipitada ou gradativa, é essencial para que um filme do gênero de horror provoque em quem assiste os sentimentos necessários para a imersão na trama.


A ambientação de Suspiria é como um pesadelo, em que a ignorância do telespectador é igualada a de Suzy e o vitimiza junto a ela naquele ambiente novo e estranho. A trilha sonora estridente e sibilante como uma cobra da maravilhosa banda de rock progressivo italiana Goblin traz desde o início uma sensação constante de perigo e logo as cores exuberantes introduzem o surrealismo no melhor estilo Alice no País das Maravilhas.

Não é possível assistir Suspiria e ficar indiferente a esses elementos tão bem colocados de ambientação. As cores dos cenários são tão absurdas quanto as atitudes dos professores e funcionários do instituto e os acontecimentos daquele lugar. Com um horror psicológico gritante está presente como uma névoa sobre aquela cidade, a estética do filme faz todos os lugares parecerem estar dominados por uma atmosfera de insegurança e de que há um terrível segredo por trás de tudo aquilo. Suspiria é, sem dúvida, uma das obras mais vanguardistas no gênero quando se trata de usar a psicodelia como um elemento de horror em um nível tão extremo.


O filme possui uma brutalidade poética. Ela é desenvolvida em cenas longas e densas de suspense crescente até o ápice da angústia. A cereja no topo do bolo do rastro de morte que acompanhamos ao longo de Suspiria são os assassinatos violentamente gráficos e muito bem elaborados, com uso de alguns bons litros de sangue do vermelho mais vivo para colorir ainda mais seus ambientes extravagantes.

Legado e releituras


Embora Suspiria seja uma obra consagrada e considerada um grande clássico pelos fãs de horror, algumas pessoas não sabem que se trata do primeiro filme de uma trilogia, todos assinados por Dario Argento, conhecida como Trilogia das Bruxas ou das Mães. Depois de sermos apresentados à Mãe dos Suspiros (Mater Suspiriorum), em Inferno (1980), ambientado em Nova York, é revelado um livro chamado Le Tre Madri, as Três Mães, em tradução literal. Essa segunda história é antagonizada pela Mãe das Trevas (Mater Tenebrarum), enquanto a famigerada conclusão do ciclo, Mãe das Lágrimas (2007), que se passa em Roma, conta com a bruxa Mater Lacrimarum, homônima ao nome do filme.


Suspiria já está na mira do Monstro Hollywoodiano dos Remakes há quase uma década. Foi somente em 2015 que a história da bailairina Suzy contra a bruxa Helena Markos saiu do limbo da pré-produção com a liderança do diretor italiano Luca Guadagnino, fã assumido de Argento. Suas filmagens em Berlim terminaram em março desse ano, e atualmente está em pós-produção.


Embora o novo filme tenha algumas notícias que deixaram os fãs felizes, como a participação de Jessica Harper (a Suzy original) e a maravilhosamente única Tilda Swinton no papel de Madame Blanc, ele já ganhou o desafeto dos fãs por vários detalhes que vão muito além do fato de que ninguém gosta de ver seus filmes favoritos sendo refeitos ou rebootados.


Dakota Johnson tem sido um dos motivos de polêmica ao ter sido escalada como a nova Suzy, provavelmente pelo simples fato de ser a protagonista de dos filmes de Cinquenta Tons de Cinza. A presença de Chloë Grace Moretz (dispensa apresentações, acredito) também desagradou alguns fãs, mesmo que a personagem dela, a bailarina Patricia Hingle, seja a primeira a morrer – pelo menos no filme original.


No entanto, tudo isso são pequenos desagrados perto do grande motivo da insatisfação dos fãs, que veio do próprio Luca Guadagnino. Em uma entrevista ao Indiewire, o diretor afirmou que será bem diferente do material original, a começar pela eliminação das cores que inundam os olhos do espectador no primeiro filme. Nas palavras de Guadagnino:


"É um filme sobre culpa e maternidade. Não há cores primárias em sua paleta de cores (...) será frio, cruel e muito sombrio"


O que essa descrição tem em comum com o Suspiria de 1977? Absolutamente nada. Isso pode ser uma boa notícia - pelo fato de a proposta ser fazer um filme novo, sem plagiar a obra original - ou pode ser uma notícia muito, muito ruim, por transformar um dos filmes mais marcantes do cinema italiano em mais um terror Hollywoodiano ordinário e com pouca relevância artística.


Façam suas apostas.

#Feminismo #Horroritaliano

 sobre o mnh: 

 

Resenhas críticas, artigos e dicas de filmes de Horror: tudo isso sob a perspectiva feminista, com o objetivo de debater a importância das mulheres no gênero, tanto atrás quanto em frente às câmeras, exaltando personagens femininas fortes e mulheres realizadoras de Horror no audiovisual.

 Siga o mnh: 
  • Facebook B&W
  • Instagram B&W
 POSTS recentes: