As máscaras (1964) - episódio de "Além da Imaginação"

O objeto de análise desta resenha é o episódio “As máscaras” (1964), que faz parte da 5ª temporada da série antológica “Além da Imaginação”, criada por Rod Serling. A série americana foi ao ar pela emissora CBS de 1959 até 1964, havendo também em 1985 uma nova versão da série que teve outras três temporadas e durou até 1989, conquistando uma legião de fãs que perdura até hoje. As temáticas abordadas na série eram as mais diversas possíveis, sendo que cada episódio era independente do outro, porém o que fazia todos se conectarem era o enredo envolvente e uma forma única e muito criativa de se tratar o sobrenatural, forma essa que causava ansiedade no público que aguardava afoito pelos episódios semanais que eram exibidos sempre aos sábados.

A primeira versão do seriado possuiu 5 temporadas e um total de 156 episódios, dirigidos por diferentes pessoas, porém o único episódio a ser dirigido por uma mulher é o objeto de análise deste ensaio: “As máscaras”, com direção de Ida Lupino. O episódio é de grande destaque na série, e impressiona não só pela estética, mas também pela metáfora e crítica à sociedade que ele traz em seu conteúdo.

“As máscaras” é o 25º episódio da 5ª temporada da série, e foi escrito pelo também criador da série, Rod Serling. O episódio se passa em New Orleans e conta a história de Jason Foster, um milionário que está à beira da morte e passa uma última noite com sua família, justamente no dia de Mardi Gras, a festa carnavalesca onde foliões comemoram utilizando máscaras e fantasias ocupando as ruas da cidade. Jason pede para que a família jante, dizendo que após a janta ele tem uma surpresa para eles: pede-lhes que usem uma máscara durante algumas horas e então poderão ficar com toda a sua fortuna.

Durante a distribuição das máscaras para sua filha Emily, seu genro Wilfred e seus netos Wilfred Junior e Paula, o senhor pergunta como cada um se vê e dá a máscara a qual a pessoa considera antagônica à sua personalidade, porém na verdade cada máscara reflete e exterioriza a verdade “feia” que há no interior de cada um. Aos poucos somos apresentados a uma família que nunca se importou com Jason, nunca o visitavam e só estavam interessados no dinheiro, além disso, conseguimos perceber as características horríveis de cada membro: Emily é uma mulher medrosa e que vive se lamentando por tudo, Wilfred é desumano e só pensa em dinheiro, Wilfred Junior é cruel e torturava animais quando criança, e por fim Paula vive de aparência, se importando apenas consigo mesma e com sua beleza. Ao final da noite Jason falece, e a família comemora sua morte e agora sua nova fortuna, mas por pouco tempo: quando tiram as máscaras, são surpreendidos ao ver que os seus rostos se transformaram na própria imagem da máscara, representando então a personalidade vil de cada um.

A diretora Ida Lupino.

O episódio foi dirigido por Ida Lupino, uma atriz, roteirista, produtora e diretora inglesa que foi erradicada nos Estados Unidos. Ela foi, como dito anteriormente, a única mulher a dirigir um episódio de ‘Além da Imaginação’, e o fez com maestria: criou uma narrativa forte quanto ao conteúdo e ao visual, criando imagens para sentimentos até então indescritíveis e revelando aos poucos a intrínseca relação familiar, além de levar o suspense até o limite, com a revelação surpreendente ao final do episódio. Para mais, Ida teve sua própria produtora independente onde produziu e co-escreveu diversos filmes, sendo uma pioneira na década de 50, tendo assim aberto o caminho para que outras mulheres pudessem ocupar cargos técnicos importantes por trás das câmeras.

Tanto ‘As máscaras’ quanto todos os outros episódios de ‘Além da Imaginação’ sempre começavam com Rod Serling dando uma breve sinopse do que se tratava cada episódio e apresentando aos espectadores o seriado, seguido de uma narração que no caso da 5ª temporada era: “Esta porta é aberta com a chave da imaginação. Além dela, há uma outra dimensão - uma dimensão de som, uma dimensão de visão, uma dimensão da mente. Você está prestes a entrar num território de sombra, de matéria, de coisas e ideias. Você acabou de entrar em uma região para Além da Imaginação.” Juntamente com imagens bizarras em uma galáxia: uma janela se quebrando, um único olho flutuante, um relógio voador, dentre outras esquisitices que introduziam à cartela de título da série. Só esta abertura e introdução inicial já contribuíam para reforçar o clima de Horror e suspense sobrenatural a que a série tinha como temática principal.

O episódio em questão já se inicia exibindo uma mansão suntuosa e um senhor moribundo, indicando que ele é alguém muito rico, e então ao decorrer do episódio consegue-se entender a história toda, que de uma forma muito sublime vai nos revelando o passado e o presente dessa família e deste senhor. O cenário então cumpre um papel muito importante, pois nos introduz a história e coloca uma enorme e luxuosa mansão em contraste com personagens vazios e que mesmo juntos ainda são solitários e individualistas. A decoração e objetos de cena deslumbrantes também contrastam com essa família que só pensa em possuir riquezas e dinheiro, porém é completamente pobre de espírito.

Por ser filmada na década de 50-60, a série foi produzida toda em preto e branco, o que poderia significar a perda de detalhes visuais que as cores trazem - porém o seriado usa isso totalmente a seu favor, criando uma atmosfera ainda mais sombria e usando o alto contraste para marcar as expressões faciais dos atores. Isso fica muito evidente e é de extrema importância no episódio analisado, pois as máscaras utilizadas, e posteriormente o próprio rosto dos personagens, carregam expressões muito fortes e demarcadas, que servem segundo a narrativa para exteriorizar a personalidade cruel e feia dos personagens: o que eles realmente são e que antes se encontrava escondido dentro de cada um. Além disso, o visual das máscaras e a maquiagem dos atores não apenas fazem todo o sentido para o enredo, como também chocam os espectadores pela sua perfeição, uma vez que a série traz grandes inovações em efeitos visuais práticos.

Outro aspecto interesse é a utilização dos planos e movimentos de câmera, ora planos abertos que mostram toda a ostentação da casa juntamente com os personagens ficando pequenos em meio à grandiosidade do local, ora planos fechados que exibem claramente a feição de cada personagem, revelando assim seus desejos, sua personalidade. O uso do plano fechado é muito importante também para mostrar as máscaras e o que elas representam, qual feição elas tem, sendo que depois elas serão as próprias faces dos personagens. Outro momento significativo é quando os personagens estão no auge da agonia, já prestes a tirar as máscaras e então a câmera os acompanha de um lado para o outro, dando uma sensação de desnorteamento e de agonia, seguido de uma discussão onde a montagem e os movimentos de câmera também são acelerados para acompanhar o ritmo da narrativa.

Todo o enredo gira em torno das máscaras e de suas representações, e o que me intrigou também foi a máscara que Jason usa, bem diferente das outras: uma máscara de caveira, simbolizando que ele logo irá morrer e se transformará em uma caveira tal como a máscara. Os personagens usaram máscaras representativas durante sua vida inteira, então o uso de máscaras reais é só mais uma metáfora a isso: á eles terem vivido uma vida baseada em aparência sem se importar com sua própria família nem conseguir ‘responder ao amor’, como Jason fala ao final do episódio. A agonia que eles sentem ao usá-las sai das telas e consegue alcançar os espectadores, pois as cenas conseguem transmitir uma sensação claustrofóbica e enclausuradora, de estar preso em algo e não conseguir sair de modo algum, e é essa a sensação que fica ao assistir "As máscaras".

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