A casa das mulheres psicóticas (livro)

"Tudo começou com ‘Possessão.’ O filme de Zulawski, formalmente falando, é perfeito – seus tons azuis profundos, suas locações labirínticas, a fotografia hipnótica de Bruno Nuytten. Mas não foi isso que me atraiu para retornar ao filme de novo e de novo. Havia algo terrível naquele filme, um desespero que reconheci em mim mesma, na minha incapacidade de me comunicar efetivamente, e a frustração que levaria a angústia, raiva e histeria.”

Este é o primeiro parágrafo do livro ‘House of Psychotic Women: An Autobiographical Topography of Female Neurosis in Horror and Exploitation Films’ da autora canadense Kier-La Janisse. Passei meses tentando escrever uma resenha sobre esse livro (comecei, várias vezes), mas como você explica para si mesma que a representação do ‘danificado’ que você vê na tela, principalmente dentro de narrativas de horror, é com quem você mais se identifica?

Como uma mulher e uma fã de terror, às vezes eu sinto a necessidade de me explicar e me defender por ter uma relação tão íntima com o gênero. Muitas pessoas me perguntam, mas o que você gosta dentro no terror? Por que você gosta de ver mulheres passando por tantos horrores? E sim, eu costumava me fazer a mesma pergunta. Por que é tão reconfortante para mim ver mulheres perderem a cabeça na tela de cinema?

Eu sempre me encontro suplicando por autodestruição e gostaria entender o por quê. Como uma mulher diagnosticada com transtornos mentais, eu queria compreender esse fascínio por algo que me devastaria completamente. A cultura pop geralmente reforça estereótipos sobre distúrbios mentais,nos sujeitando a olhar para nós mesmos como uma propriedade pública aterrorizante, o que é assustador e revoltante; mas o que eu me deparei ao longo da minha obsessão pela neurose feminina no horror foi uma maneira de lidar com a minha própria neurose, pois isso é extremamente familiar para mim. O terror me moldou como pessoa (desde a minha infância, a relação com o meu pai, minha adolescência, minhas amizades, etc.) e tornou-se uma parte de mim. E para citar Kier-La Janisse, “Eu permaneci por causa de algo em mim mesma. E esse ‘algo’ era decididamente feminino.”

3 Women (1977), Alucarda (1977), Diabel (1972), Carrie(1976), La Novia Ensangrentada (1972), Femina Ridens (1969), Let’s Scare Jessica To Death (1971). Todos esses filmes me remetem a um profundo sentimento de pertencimento, minha psique fragmentada compartilha algo com todas essas mulheres – paranoia, ansiedade, histeria apocalíptica; filmes que focam na experiência de ser uma mulher e não se sentir desvalorizada por ter emoções tão destrutivas. Eu lembro de ler um post em um blog que tinha como título, “Filmes de terror são um dos poucos lugares em que as mulheres são asseguradas de que seus medos são reais” e que reflete intensamente comigo e a internalização de ansiedade e culpa que sinto por ser ‘completamente louca.’ E é daí que vem o meu apelo pelo cinema extremo.

O excesso emocional e sem remorso que encontro em Isabelle Adjani rindo e uivando em uma estação vazia de metrô, em Françoise Pascal sufocando seu amante e dançando nua em um cemitério, em Jeanne Moreau como a ‘boa moça’ criando caos em uma pequena vila, refletem nas minhas experiências internas e pessoais como alguém que sempre se sentiu a um passo da escuridão. “Tudo que vemos na tela é uma ficção que somos encorajados a acreditar, e nós acreditamos porque podemos encontrar verdade nessa ficção."

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Resenhas críticas, artigos e dicas de filmes de Horror: tudo isso sob a perspectiva feminista, com o objetivo de debater a importância das mulheres no gênero, tanto atrás quanto em frente às câmeras, exaltando personagens femininas fortes e mulheres realizadoras de Horror no audiovisual.

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