XX (2017)

O filme XX (2017) é uma antologia de 4 curtas-metragens dirigidos por 4 mulheres, sendo elas: Jovanka Vuckovic (The captured bird), Annie Clark, Roxanne Benjamin (V/H/S) e por fim Karyn Kusama (The Invitation). As quatro histórias não possuem ligação direta entre si, porém se assemelham em usar temas narrativos já recorrentes no Horror, só que dessa vez do ponto de vista feminino e com temáticas femininas, se contrapondo á uma tradição de homens em frente e por trás das câmeras. Sendo assim, o filme é não apenas dirigido como roteirizado e também protagonizado por mulheres. O filme esteve em produção por 3 anos e foi lançado em 17 de fevereiro deste ano, já estando disponível na Netflix (corre lá assistir), contando com esse time de diretoras maravilhosas (você não pode perder!).

Como são 4 histórias diferentes, vou separar essa resenha crítica em 4 partes, para poder falar de cada um dos curtas.

A CAIXA:

Este primeiro curta foi dirigido por Jovanka Vuckovic e é adaptado de um conto. Ele conta a história de uma família aparentemente comum, cujo filho perde repentinamente a fome e vontade de comer após ver algo em uma caixa vermelha que um homem estava segurando no metrô, caixa esta que segundo o homem, era um presente. As coisas vão ficando cada vez mais sinistras e tensas ao longo dessa história, sendo nela o protagonismo feminino mais evidente ainda, pois a personagem Susan (Natalie Brown) narra em primeira pessoa o ocorrido, no começo e no final do curta, de uma forma bem intimista. A história também debate sobre maternidade (assim como outras duas histórias do filme), expondo como a sociedade demanda que as mães sofram excessivamente em detrimento do sofrimento dos filhos, mesmo quando não há necessidade ou explicação racional para isso, como é evidenciado em uma fala em que Robert (Jonathan Watton), o marido de Susan, diz que não entende como ela consegue comer enquanto os filhos estão se desnutrindo, e ela responde “Bom, eu preciso comer, não preciso?”. A trilha sonora desse curta torna tudo ainda mais angustiante, desde os ruídos até os temas musicais, deixando os espectadores tensos e atentos, como se algo ruim fosse acontecer a qualquer momento. Esta foi para mim, a mais angustiante das 4 histórias e também a que mais me deixou com vontade de assistir mais, saber mais sobre (mesmo com medo de saber mais), e me deixou aflita e curiosa ao mesmo tempo.

A FESTA DE ANIVERSÁRIO:

O segundo curta foi dirigido por Annie Clark, uma musicista também conhecida como St. Vincent, que já compôs músicas para diversos filmes, porém fez sua estreia como diretora em XX. A história narra a desastrosa festa de aniversário de 7 anos de Lucy, cujas coisas dão errado do começo ao fim, mesmo com sua mãe Mary (Melanie Lynskey) tentando fazer de tudo para que desse certo. Esse curta também trás à tona um debate em forma de metáfora sobre uma maternidade mais realista e menos romantizada, cuja mãe tenta fazer com que tudo dê certo e se vê obrigada a lidar com mil coisas ao mesmo tempo, resolver todos os problemas familiares, dar o melhor de si durante todo o tempo, e mesmo assim isso ainda não é o suficiente. Maternidade essa que faz com que a mãe acabe se deixando um pouco de lado tendo em vista que tem tantas coisas para resolver para os outros, como podemos ver na cena da festa de aniversário, em que todos os convidados estão arrumados, Lucy está arrumada com uma fantasia que a mãe conseguiu improvisar, mas Mary ainda veste uma camisola e um robe. O curta também traz uma abordagem mais realista e natural até mesmo nas suas atuações e nas situações que acontecem, mostrando que o horror não precisa da instância sobrenatural para se fazer presente, ele pode estar em uma situação real de uma vida comum. A direção de arte executou com primor a tarefa de transpor e misturar elementos opostos como bizarro e o belo, que trazem um estranhamento contínuo. Além disso eu gostei muito dessa história por conseguir fazer com que eu me divertisse mesmo com uma situação horrível, havendo um misto de constrangimento e desespero com um toque de humor que a diretora Annie Clark trouxe para o curta, sendo assim, espero que ela continue no ramo do Cinema (ainda mais se for do Horror).

NÃO CAIA:

‘Não Caia’ é a 3ª história, dirigida por Roxanne Benjamin, e que traz uma narrativa muito recorrente no Horror, porém contada de uma forma diferente: um grupo de amigos viaja juntos por uma área deserta e acabam acampando em um local não permitido, fazendo com que coisas bizarras aconteçam. Parece que você já conhece essa história, não é mesmo? Mas o curta consegue reaproveitar uma história que já se repetiu várias vezes, reciclando até estereótipos de personagens para contar uma nova versão, agora com maior protagonismo feminino e usando um enredo que subverte e dá um nó no arco dramático entre vítima e monstro. A história brinca com esses estereótipos mostrando que o perigo ás vezes pode vir de quem se menos espera, e pelo menos ao meu ver, também brinca com o subgênero ‘Slasher’, cuja narrativa se alimenta muito desse enredo de ‘jovens indo acampar’, porém aqui a ameaça de fora usa o corpo de um deles para promover o banho de sangue. Eu também gostei particularmente da fotografia e da edição desse curta, os planos e cortes trazem o suspense e a aflição, trabalhando para a narrativa fílmica. O curta foge do tema maternal muito presente no filme, e também é um pouco menos sutil, com mais violência visual, se diferindo um pouco dos outros.

O ÚNICO FILHO DELA:

O terceiro curta é dirigido por Karyn Kusama, e finaliza XX com chave de ouro, sendo o filme que eu considerei mais bem elaborado e que poderia facilmente ser expandido para se tornar um longa-metragem. A história começa com uma mulher grávida fugindo de algum lugar, sem nos explicar o porquê de ela estar fugindo ou o que aconteceu com ela, e em um pulo temporal de 18 anos depois, acompanha-se a vida de Cora (Christina Kirk), vivendo um drama com seu filho adolescente que apresenta comportamentos violentos cada vez mais frequentes. O curta constrói um terror psicológico muito bem elaborado, revelando muito aos poucos e muito sutilmente o passado que Cora tenta esconder, e traz à tona novamente uma maternidade disfuncional, mostrando um lado obscuro das relações familiares e da maternidade como fonte de amor incondicional, mas também como fonte de algo maligno e sombrio. Eu daria um destaque para a construção dos personagens e para a atuação, principalmente a atuação de Michael Doyle, que interpretou o carteiro Chet, e a protagonista Christina Kirk. Os personagens foram bem construídos a ponto de nos fazer querer saber mais sobre eles, sobre o passado deles, porém sem deixar nada sem 'explicação', tudo se completa e faz sentido de acordo com a narrativa.

Para finalizar, creio que 'XX' é de suma importância pois pôde dar voz à personagens femininas, mostrar a visão de diretoras mulheres que são frequentemente apagadas da história do cinema como um todo e principalmente o cinema de Horror, e mostrar que estamos tentando conquistar um espaço ainda machista, e que a presença de mulheres nas temáticas e na equipe técnica é por si só um ato de resistência. Além disso, os curtas se conectavam com uma animação stop motion que na minha opinião deu um toque macabro que conseguia ao mesmo tempo dar um descanso aos olhos e nos preparar para a próxima história, mas também dar a sensação de que o horror ainda estava longe de acabar, que vinha mais por aí. E no final do filme, encerrar com uma boneca colocando um coração e dando vida á uma garota foi, para mim, o grito definitivo de que as mulheres estão para valer ocupando espaço no Horror, mesmo que aos poucos.

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Resenhas críticas, artigos e dicas de filmes de Horror: tudo isso sob a perspectiva feminista, com o objetivo de debater a importância das mulheres no gênero, tanto atrás quanto em frente às câmeras, exaltando personagens femininas fortes e mulheres realizadoras de Horror no audiovisual.

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